Da Foz ao Palácio do Freixo… pelo Rio

Nos dias de hoje, quando pensamos ir da foz do Rio Douro até ao Palácio do Freixo, pensamos evidentemente em percorrer toda a marginal. Mas antes da sua demorada construção, como seria?

A viagem por certo não deixaria de se fazer, mas a estrada era outra: o Rio.

Por ele se transportavam mercadorias, como o carvão de S. Pedro da Cova para alimentar as caldeiras das inúmeras fábricas que no séc. XIX existiam na cidade do Porto, a carqueja para os fornos das padarias ou, desde Avintes, as vendedoras da célebre broa ou ainda, em (poucos) momentos de lazer, uma ida à praia do Areínho

Já não nos cruzamos com os rabões de velas negras que transportavam o carvão, nem com os valboeiros da pesca da lampreia e do sável ou de transporte de pessoas, apenas resistem, em movimento frenético, os rabelos agora adaptados para passeios turísticos.

Se o objectivo de embarcarmos rio acima não é de transportar mercadorias ou de irmos a banhos ao Areínho, não será por isso que esta é uma viagem desprovida de sentido, se pensarmos que nos esperam duas pérolas da cidade, uma mais conhecida do que a outra: o Palácio do Freixo e a Quinta Villar D'Allen.

A viagem tem início na Afurada, vila de pescadores quase na "boca" do rio junto ao mar, mas à Barra voltaremos no regresso da viagem. Agora espera-nos a bonita Ponte da Arrábida como anfitriã da cidade.

E se agora tudo é Porto, o que a seguir nos espera foi em tempos arrabalde da cidade: o Vale de Massarelos.

Terra de marinheiros e de outras actividades navais, de que ainda resta a sua memória na Igreja da Confraria do Corpo Santo de Massarelos, foi também terra de moleiros (nos moinhos que então acompanhavam o rio de Vilar ao longo de todo o vale, para desaguar no Douro), da indústria de fundição, de cerâmica e até de cerveja!

Hoje, ainda podemos observar as instalações da antiga Central Eléctrica dos STCP transformada agora no interessante Museu do Carro Eléctrico, o bonito edifício que foi em tempos armazém e lota de peixe e recentemente transformado em unidade hoteleira depois de décadas de abandono e ainda a alta chaminé como testemunho da antiga fábrica de Cerâmica de Massarelos.

Já no horizonte e lá no alto, o manto verde dos jardins do Palácio de Cristal que infelizmente já não existe, tendo sido inaugurado em 1865 para receber a Exposição Internacional do Porto (tal como as "expo" de hoje), um projecto arrojado levado cabo pelos industriais e capitalistas da cidade. Logo depois e junto ao rio, a mole cinzenta de granito do edifício da antiga Alfândega.

Construído na segunda metade do séc. XIX sobre a praia de Miragaia foi ainda necessário proceder à demolição de mais de duas centenas de casas. Esta era uma necessidade sentida pela cidade que movimentava cada vez mais mercadoria e que se encontrava espalhada por vários locais. Hoje, para além de acolher o Museu dos Transportes e Telecomunicações é um Centro de Congressos premiado internacionalmente.

Seguimos rio acima com vista sobre a Cidade encimada pela Torre dos Clérigos, a obra icónica de Nicolau Nasoni, passando depois pelas emblemáticas pontes Luís I e D. Maria Pia (esta última construída pala casa Eiffel, ainda antes da Torre que lhe deu nome e fama mundial), e pelas mais recentes, do Infante, de S. João e do Freixo até chegarmos a Gramido ao sabor da conversa, na companhia de um Porto D'Honra. Já na descida e com o olhar já confortado, é o estômago que merece reconforto a pedir paragem no Palácio do Freixo.

Chegados pelo Rio ao Palácio, sentemo-nos à mesa do Palatium com cozinha do Chef Tony Salgado, numa das belíssimas salas profusamente coloridas ou na intimidade de uma sala privada com vista para o Rio.

Pedido concedido com repasto a preceito, do Palácio caminhamos até à Quinta de Vilar D'Allen, um lugar magnífico e único na cidade. Desconhecido pela grande maioria dos Portuenses, a casa com os seus jardins românticos característicos do séc. XIX, com lagos, cascatas artificiais, plantas exóticas e a enorme variedade de camélias que entre Março e Abril se encontram em todo o seu esplendor, serão desvendados na companhia de um dos membros da família Allen, que ali residem desde 1860.

A riqueza paisagística e a diversidade botânica rivaliza com a riqueza histórica da família Allen que se cruza com a própria história da Cidade do Porto onde, ainda hoje, nos deparamos com o seu legado.

A visita aos jardins e à casa não ficaria completa sem uma prova de Vinho do Porto, no caso, um premiado Tawny 20 Anos, ou não estivéssemos nós na casa de uma Família que teve neste néctar o seu negócio.

De regresso ao Rio para embarcarmos de novo no Arraes, a jornada completa-se com um Porto D'Honra a bordo, tendo como cenário a Barra e o Passeio Alegre.